Opinião

Opinião – José Richard

Sufocado pelas motos


09/01/2026 - Edição 2284

As ruas da Ilha do Governador tornaram-se, nos últimos tempos, um exercício de tensão e medo. O que deveria ser um simples direito de ir e vir virou uma espécie de roleta russa urbana, em que pedestres e motoristas disputam espaço não apenas com o trânsito, mas com a irresponsabilidade crescente de parte dos motociclistas que parecem ter decidido abolir, por conta própria, qualquer noção de lei, limite ou convivência civilizada.

É impressionante a bagunça que as motos provocam nas ruas e até nas calçadas de praticamente todos os bairros da região. Avançar sinais vermelhos virou regra, não exceção. Faixas de pedestres, que deveriam ser território sagrado de proteção a quem caminha, transformaram-se em zonas de alto risco. O insulano, mesmo fazendo tudo certo, atravessa a faixa com o coração na mão, torcendo para não ser atingido por alguém que parece acreditar que as leis de trânsito não se aplicam a quem está sobre duas rodas.

O desrespeito é generalizado. Não se poupa ninguém: nem idosos, nem crianças, nem motoristas de carros, nem mesmo viaturas policiais, ambulâncias ou carros de bombeiros. O barulho estridente das buzinas e dos escapamentos rasgados compõe a trilha sonora de um cotidiano cada vez mais hostil, em que o cidadão de bem se sente acuado e sem reação. Muitos motoristas relatam a sensação de estarem cercados por todos os lados, obrigados a adivinhar por onde alguma moto vai surgir, como se dirigir tivesse virado um jogo de sobrevivência.

À noite, o problema assume contornos ainda mais revoltantes. O ruído ensurdecedor de motos em alta velocidade e com escapamentos adulterados invade casas e apartamentos, desrespeitando o descanso de quem acorda cedo para trabalhar. Não se trata de mero incômodo: é agressão direta à qualidade de vida e à saúde da população.

Também é preciso dizer que não se pode confundir trabalhador honesto que usa a moto como instrumento de sustento com aqueles que transformam as ruas em pista de corrida e as calçadas em extensão do asfalto. Para estes, só há um caminho aceitável: ações constantes de fiscalização e a aplicação da lei.

O mais grave, porém, é a sensação de abandono. O desrespeito cresce, a desordem se normaliza e a população da Ilha tornou-se refém de uma minoria barulhenta, imprudente e inconsequente. Não se pode aceitar passivamente essa escalada de caos nas ruas.