Opinião

Opinião – José Richard

Feira do Cacuia


12/09/2025 - Edição 2267

O Cacuia é, sem dúvida, um dos bairros mais tradicionais da Ilha do Governador. Quem não conhece o movimentado trecho entre o relógio e o hospital Paulino Werneck? E talvez nenhum espaço traduza tanto a alma insulana quanto a tradicional feira livre do Cacuia, que toma conta de um grande trecho da rua Sargento João Lopes nas manhãs de domingo. Mais do que um simples lugar de compras, a feira é um ponto de encontro, um pedaço de memória viva onde gerações se encontram.

Quem caminha na feira por entre as dezenas de barracas percebe logo que não se trata apenas de escolher frutas, legumes ou carnes. As feiras de modo geral são assim, mas a do Cacuia é especial. Quantos de nós crescemos acompanhando pais e avós nesse ritual? O pastel quente com caldo de cana, a sacola de verduras fresquinhas, o grito do feirante oferecendo sua mercadoria — tudo isso faz parte de um cenário afetivo que atravessa décadas.

A ida à feira do Cacuia é também um passeio e espaço para confraternização, onde amigos se reencontram casualmente, vizinhos trocam abraços e notícias. Há quem vá também saborear um torresmo crocante feito na hora e puxar uma conversa animada. Ali, a pressa dá lugar à convivência tranquila e a feira se transforma em uma acolhedora sala de estar ao ar livre.

O Cacuia, berço da União da Ilha e reduto de sambistas da Tribo Cacuia, sempre carregou esse espírito festivo e acolhedor. E a feira mantém viva essa tradição. É um lugar de descontração em que se misturam classes sociais, idades e histórias, todos nivelados pela simplicidade e também pelo prazer de compartilhar conversas democraticamente no mesmo espaço.

A cada domingo a feira oferece oportunidades para o morador viver sem preconceitos ao lado de tanta gente. A multidão das feiras convive harmoniosamente, embora as contradições individuais. E, em um tempo em que as ruas se mostram tão perigosas, as feiras livres - como a da Cacuia -, ainda são espaços que mantem uma tradição positiva de convivência e que precisam ser preservados, tanto pelo aspecto cultural, como também pelas democráticas oportunidades de geração de renda para muitos insulanos.