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O colapso da energia elétrica em 2024

*Wagner Victer


Por Wagner Victer

04/09/2026 - Edição 2318

A empresa reforçou as equipes durante a instabilidade
A empresa reforçou as equipes durante a instabilidade

Muitos me classificaram como pitonisa quando, há muitos anos, anunciei que a Ilha do Governador teria um colapso no abastecimento de energia elétrica. A previsão acabou se confirmando de maneira contundente com a crise de energia de 2024.

Para quem conhece minha carreira profissional, é importante lembrar que, tão logo me graduei em Engenharia, fui trabalhar na Light, ainda quando era estatal. Durante alguns anos, fui um dos responsáveis pela manutenção de grande porte em diversos bairros do Rio, em especial na Ilha do Governador. Portanto, conhecia profundamente o sistema elétrico que abastecia nossa Ilha, conhecimento que acabou sendo útil durante a crise.

A Ilha do Governador é abastecida por cabos de alta tensão, de 138 kV (138 mil volts), que funcionam como verdadeiras artérias de eletricidade. Eles vêm basicamente de duas subestações externas à Ilha: Brás de Pina e Pedro Ernesto, esta última próxima a Olaria e Ramos, sendo que alguns desses cabos chegam à Ilha por via submarina.

Esses cabos transportam uma quantidade relevante de energia e se interligam a um conjunto de subestações internas, formando uma espécie de anel elétrico dentro da Ilha. Essa configuração permite abastecer toda a nossa região, incluindo o Aeroporto Internacional do Galeão.

Tentando decodificar para o nosso leitor em uma linguagem mais simples, hoje os cabos de alta tensão chegam basicamente a duas subestações que temos dentro da Ilha: a Subestação do Fundão, próxima à estação do BRT, e outra no Aeroporto Internacional, chamada no passado de “Subestação Supersônica”, naquela reta em direção ao Aeroporto. Na prática, são as artérias que trazem energia para ser distribuída pelo território insulano.

É um complexo sistema, bastante engenhoso e adequado para abastecer a região. O problema é que esses cabos tinham mais de 50 anos e já haviam extrapolado seu limite de transferência de carga. Com o crescimento da Ilha, especialmente da chamada carga térmica provocada pelo uso crescente de ar-condicionado, inclusive em regiões mais carentes, era totalmente previsível que o sistema chegasse ao seu limite e entrasse em colapso.

A solução que demos ao colapso, da qual participei como cidadão e engenheiro, será objeto de futuro artigo. Na ocasião, foram distribuídos mais de uma centena de geradores pela Ilha, permitindo a geração local, ao mesmo tempo em que se iniciou a troca dos cabos.

Essa substituição foi extremamente complexa. Os novos cabos não estavam disponíveis de prateleira e sua instalação, tanto em trecho submarino quanto em um novo leito, envolveu obras de engenharia de grande porte. Isso gerou transtornos na Ilha, mas permitiu que hoje tenhamos um novo sistema, muito mais robusto do que aquele que existia no passado.

A crise de abastecimento de energia elétrica na Ilha do Governador foi um verdadeiro case nacional. Envolveu uma grande mobilização de diversos agentes e até a participação do Ministério de Minas e Energia.

*Wagner Victer é Engenheiro, Administrador e Professor da Fundação Getúlio Vargas.