07/08/2026 - Edição 2314
Dentro da proposta desta coluna de analisar a Ilha do Governador sob o "olhar de engenheiro", para o Ilha Notícias, resolvi fazer um pequeno "devaneio". Imaginei pontos "cardeais magnéticos" próprios para a Ilha, dissociados do Norte Magnético do planeta. Não enlouqueci, mas trata-se apenas de um exercício para compreender melhor o comportamento das águas e o fluxo da Baía de Guanabara tomando a Ilha como referência.
Resolvi fazer esta explicação porque recentemente vi uma divulgação afirmando que a eliminação de lançamentos de esgoto no Corredor Esportivo do Moneró, no lado Norte da Ilha, beneficiaria diretamente as águas da Praia da Bica, no lado Sul.
A Baía de Guanabara abriga boa parte da Região Metropolitana do Rio de Janeiro e constitui um complexo sistema de circulação das águas e de drenagem de uma importante bacia hidrográfica alimentada, entre outras áreas, pela Serra dos Órgãos.
Quando fui Secretário de Estado de Educação, procurei valorizar nos currículos escolares a geografia e a história do lugar onde cada aluno vive, por entender que conhecer o próprio território faz parte da formação da cidadania.
A Baía de Guanabara recebe as águas oceânicas pela chamada Boca da Baía, situada entre o Rio de Janeiro e Niterói. Por isso, essa região apresenta maior renovação das águas e sofre menos os efeitos dos lançamentos de esgoto do que as áreas mais internas. Essa influência alcança também as praias da Ilha voltadas para essa abertura, especialmente a Praia da Bica e, em menor escala, a Praia da Freguesia.
Essa dinâmica também ajuda a entender os impactos das intervenções humanas. No lado Oeste da Ilha, voltado para o continente, o fluxo natural das águas foi bastante prejudicado pelos aterros realizados para a formação da Cidade Universitária, somando-se às contribuições dos rios da Zona Norte e da Baixada Fluminense que deságuam na Baía de Guanabara.
Entender a dinâmica é muito mais do que uma curiosidade geográfica. Ela explica por que determinadas intervenções produzem resultados diferentes conforme o ponto da Baía onde são realizadas e por que interpretações apressadas acabam criando expectativas equivocadas em nós, insulanos.
Conhecer a forma como suas águas circulam é o primeiro passo para compreender seus desafios ambientais, avaliar corretamente os resultados das ações de saneamento e participar, como cidadão e como insulano, de um debate público baseado em conhecimento, e não apenas em percepções ou boas intenções.
*Wagner Victer é Engenheiro, Administrador e Professor da Fundação Getúlio Vargas
*Wagner Victer