23/05/2025 - Edição 2251
Na Rua Beni, no Cocotá, um silêncio antigo começava a incomodar. Moradores, acostumados com a presença gentil do senhor Dário, e notaram que ele havia desaparecido. O tempo passou, mas nenhuma explicação surgia. Os filhos, que viviam com o pai, mantinham a casa trancada e resistiam a qualquer tentativa de abordagem de agentes públicos. Foi preciso uma ordem judicial para que a verdade, enfim, viesse à tona e o que foi encontrado chocou até os policiais mais experientes e o próprio delegado que classificou a situação como macabra.
Na manhã de quarta-feira (21), agentes da 37ª DP localizaram o corpo de Dario Antônio Raffaele D’Ottavio, de 88 anos, em avançado estado de decomposição, no último andar da residência onde vivia. Natural da Itália e conhecido na vizinhança pelo bom humor e gentileza, Dario estava morto havia pelo menos seis meses, segundo aponta a perícia inicial. O corpo, em fase de esqueletização, estava em um quarto vedado, com pratos de comida e água próximos. A suspeita é que a filha, Tania, dormia ao lado do cadáver.
Os filhos, identificados como Tânia Conceição Marchese D’Ottavio, ex-professora da rede municipal, e Marcelo Marchese D’Ottavio, contador sem atuação no ramo, foram presos em flagrante por ocultação de cadáver, resistência e lesão corporal. Ao serem abordados, reagiram com violência contra os policiais. Após a prisão, demonstraram confusão mental e foram encaminhados ao Hospital Evandro Freire, na Portuguesa, onde permanecem sob custódia.
A principal linha de investigação aponta que os filhos teriam mantido o corpo escondido com o objetivo de continuar recebendo os rendimentos e benefícios do pai. No imóvel, foram encontrados bens de consumo aparentemente novos, reforçando a suspeita de uso indevido dos recursos do idoso já falecido.
O delegado Felipe Santoro, titular da 37ª DP, no entanto, não descarta nenhuma hipótese. “Ainda será apurado se a morte foi natural ou se houve crime anterior. Mas o que é certo é que o corpo estava no local há meses e os filhos não comunicaram a morte às autoridades. Foi uma cena chocante para todos nós. O corpo já estava em estado de esqueletização. Estaremos atentos aos resultados das perícias para podermos desvendar esse caso – afirma o delegado.
Enquanto os laudos periciais seguem em andamento, os vizinhos de Seu Dário da Rua Beni tentam compreender como um homem tão querido teve um fim tão solitário — e cercado de mistérios. “Eu não acredito que os filhos foram capazes de fazer isso. Todos aqui da Rua tinham um carinho enorme por ele. Mas já fazia mais de um ano que não o via. Achei que estava muito doente ou tivesse viajado”, finaliza uma vizinha, que preferiu não se identificar.