Gente da Ilha

China: há 38 anos criando arte na pele


09/01/2026 - Edição 2284

China se tornou uma referência da arte na Ilha
China se tornou uma referência da arte na Ilha

Rivaldo do Nascimento Costa, mais conhecido como China, construiu ao longo de 38 anos uma trajetória que se confunde com a própria história da tatuagem no bairro. Aos 55 anos, o tatuador é considerado uma referência local e segue exercendo seu ofício com a mesma paixão dos tempos em que ainda desenhava por puro encantamento jovem.

Nascido em Natal, no Rio Grande do Norte, China veio para a Ilha do Governador aos 2 anos de idade. Desde muito cedo, China descobriu o gosto pelo desenho. Adolescente, fez um curso aos 17 anos e rapidamente percebeu que queria transformar o talento em profissão.

Antes mesmo de ter acesso a equipamentos apropriados, arriscava as primeiras experiências com pequenas tatuagens feitas com canetinha e pena. Com o tempo, China procurou se desenvolver e pesquisar técnicas e materiais num período em que qualquer novidade exigia verdadeira garimpagem.

— Havia muito pouca tecnologia na época. Você precisava ser realmente artista para conseguir reproduzir um desenho fiel — relembra.

O início era quase artesanal. Usava materiais como pó de carvão e chapas metálicas para marcar os desenhos na pele. E naquele tempo, China tinha apenas três desenhos prontos para tatuar — mas nenhum saía igual ao outro. Ele sempre fazia modificações na hora, criando versões exclusivas. Essa característica, aliás, se tornou sua marca registrada: a tatuagem única, feita sob medida, fruto de um processo autoral que ele jamais abre mão. “Não gosto de cópias. Valorizo a criação”, afirma.

China destaca que o universo da tatuagem era cercado de preconceitos e que precisou vencê-los através da arte.

— As pessoas olhavam como coisa de marginal, de maconheiro. Para vencer isso, você tinha que mostrar um trabalho diferenciado — diz China.

Determinado, ele seguiu produzindo. Tatuou na varanda de casa, quando morava na Freguesia, e passou por diversos pontos da Ilha — Bancários, Estrada do Galeão, entre outros — até consolidar a própria clientela. O boca a boca foi seu maior aliado. Pessoas tatuadas por ele há mais de 30 anos continuam procurando seus serviços e mantêm contato constante. Algumas se tornaram amigas de longa data.

Extrovertido e sempre bem-humorado, China diz nunca ter pensado em deixar a Ilha. Nem mesmo para abrir um estúdio maior fora dali. Hoje, trabalha em seu apartamento na Rua Gregório de Castro Morais, no Jardim Guanabara, onde recebe clientes novos e antigos. E não faltam histórias marcantes: entre seus clientes, já passaram até músicos da banda RPM.

— Já tatuei muita gente aqui na Ilha. Só de fotos que eu tenho guardadas aqui são milhares — conta, brincando em seguida — Eu não reconheço a pessoa pelo nome ou pelo rosto dela, mas sim pela tatuagem!

Curiosamente, apesar de quase quatro décadas tatuando outras pessoas, China nunca tatuou a si próprio.

— Não sei por que, mas nunca quis fazer. Sem falar que dói demais! Não sei como as pessoas gostam disso! — brinca.

Para ele, o prazer está em criar para o outro — algo que afirma ser sua verdadeira vocação. “Eu gosto muito do que eu faço. Se continuo até hoje, é porque sou apaixonado pela profissão”, afirma.

Realizado e ainda cheio de planos, China diz que pretende seguir por muitos anos. “Quero tatuar até os 90 anos!”, garante. A julgar pela energia, pelo entusiasmo e pela fidelidade de quem o acompanha, a Ilha do Governador ainda vai carregar muita história na pele e muitas delas com a assinatura do China.