02/10/2026 - Edição 2322
Uma recente pesquisa que realizei sobre a atividade industrial na Ilha do Governador resgatou uma história que, como engenheiro e insulano, considero especialmente relevante: na Ponta do Galeão ocorreu uma das primeiras experiências brasileiras de fabricação de aeronaves, décadas antes da criação da Embraer.
A história da indústria aeronáutica brasileira não começa em São José dos Campos. Uma parte importante dessa trajetória começou muito antes, na Ilha do Governador, quando o Galeão já era território de experimentação, formação profissional e desenvolvimento tecnológico. Em 1936, foram iniciadas as obras das Oficinas Gerais da Aviação Naval, na Praia do Galeão, posteriormente conhecidas como Fábrica do Galeão. A estrutura chegou a ocupar cerca de 19 mil metros quadrados e produziu centenas de aeronaves.
A experiência envolveu transferência de tecnologia estrangeira, inicialmente alemã, com a Focke-Wulf, seguida por tecnologias norte-americanas e holandesas, com a Fokker. Técnicos e engenheiros brasileiros foram treinados em processos de fabricação e manutenção aeronáutica. Era uma estratégia importante para o Brasil: não apenas comprar aviões, mas aprender a mantê-los, fabricá-los e formar profissionais capazes de dominar aquela tecnologia.
Essa experiência criou uma cultura industrial que ultrapassou os limites da fábrica. Profissionais formados ou influenciados por aquele ambiente participaram da construção da estrutura tecnológica que daria origem ao Centro Técnico de Aeronáutica, ao Instituto Tecnológico de Aeronáutica e, mais adiante, à própria Embraer.
A Embraer não nasceu na Ilha do Governador, mas é equivocado imaginar que sua história começou do zero em São José dos Campos. Entre o Galeão dos anos 1930 e a Embraer de 1969 existe uma cadeia de conhecimento, formação profissional, engenharia e desenvolvimento tecnológico que ajudou a construir a moderna indústria aeronáutica brasileira.
Hoje, diante dos desafios do Rio de Janeiro, precisamos perguntar qual deve ser o papel do Aeroporto do Galeão, de sua retomada e da própria Ilha do Governador no século XXI. Não devemos olhar para o passado apenas com nostalgia. A história pode ajudar a identificar vocações que continuam presentes.
O Galeão reúne localização estratégica, infraestrutura aeroportuária, acesso marítimo, proximidade com grandes centros e tradição ligada à aviação. A Ilha está inserida em uma região metropolitana que precisa ampliar sua capacidade logística, tecnológica e industrial.
Por que não pensar, portanto, em um novo ciclo de desenvolvimento a partir dessa vocação histórica? Já temos, inclusive, a retomada da antiga área de manutenção da VARIG, hoje sob operação da United.
Um Galeão integrado à logística do Estado, às cadeias industriais, à tecnologia, à manutenção aeronáutica, à formação profissional e à inovação poderia representar muito mais do que um aeroporto de passageiros. Poderia ser novamente um vetor de desenvolvimento.
Talvez seja hora de recuperar essa visão estratégica, olhando para o futuro e não apenas para o passado.